Pesquisa Científica
Esquema e Imagem Corporal em crianças com PC


Manuela Dias Bertagnoli, Renata Dias de Siqueira, Daniela Vincci Lopes



A Imagem Corporal é um termo que se refere ao corpo como experiência psicológica e focaliza as atitudes e sentimentos do indivíduo para com o seu próprio corpo. Diz respeito às experiências subjetivas com o corpo e à maneira como foram organizadas tais experiências.

A imagem corporal é a representação que o indivíduo forma mentalmente do próprio corpo, ou seja, é a imagem tridimensional que todo mundo tem de si mesmo. A imagem corporal tem íntimas relações com os movimentos ou motilidade em geral, assim como também se relaciona com o modelo postural dos outros. Acredita-se que talvez ela contenha muito mais do que a pessoa conscientemente saiba acerca de seu próprio corpo.

O termo imagem corporal remete à complexidade e à vivacidade dos fenômenos que ele implica. Não é uma imagem no sentido próprio do termo; implica em imagens e representações mentais, mas não se reduz a isso. Não é também um espelho fiel de nosso corpo ou simples resultado de nossa familiarização com o nosso corpo como ele é. Cada um elabora a imagem de seu corpo à sua própria maneira, acentuando ou modificando as diferentes partes em função dos mecanismos de sua personalidade e de toda a sua vivência passada e presente. A imagem corporal não é apenas consciente; ela é construída em boa parte com base do corpo do outro, também. Nesse processo, em geral predominam elementos visuais, mas a imagem do outro não está ligada somente à sua aparência física, mas principalmente à qualidade de nosso relacionamento com ele.

Desde o início, a exploração do corpo do bebê se dá por efeito do interesse da mãe por ele, de forma que a importância da mãe e de sua imagem corporal continuará sendo sempre fundamental. Há uma troca contínua entre a imagem de nosso próprio corpo e a imagem do corpo do outro, por um duplo processo de projeção e de introjeção. As identificações assumem capital importância na infância, mas prosseguem durante a vida toda. E a imagem corporal vai se desenvolvendo como um produto em relação do indivíduo com outros e da concepção pessoal do próprio corpo em um processo dinâmico que afeta não só as opiniões sobre a própria personalidade como as relações com os outros.

Através do desenvolvimento da imagem corporal e da integração do esquema corporal a criança toma consciência do próprio corpo e das possibilidades de movimentos. Desta forma, o esquema corporal mostra-se como elemento crucial para o desenvolvimento motor e quaisquer transtornos nesse esquema acarretarão em distúrbios sensoriais e de motricidade importantes para a criança.

A imagem corporal é uma unidade adquirida e não dada e pode ser destruída. Implica um esforço contínuo para dar uma estrutura a algo dinâmico; problema esse que se torna mais evidente na adolescência. Sendo o produto de um organismo vivo como um todo, uma alteração em uma parte dele por uma doença ou mal físico, por exemplo, não introduzirá modificações na imagem corporal apenas referente a essa parte; a mudança será geral, pois resultará de novas relações consigo mesmo e com os outros.

Portanto, imagem corporal e conceito de si mesmo se equivalem. A imagem corporal é projetada no desenho da figura humana (DFH) e, consequentemente, o conceito de si mesmo.

Como todas as crianças portadoras de paralisia cerebral (PC) apresentam um atraso no seu desenvolvimento motor, elas apresentam também dificuldade para formar sua base sensório-perceptivo-motora. O resultado disto será o comprometimento do aprendizado motor.

Os distúrbios de aprendizado motor apresentados pelos portadores de PC podem ser oriundos de disfunção motora de percepção, déficit sensório motor, distúrbios de desenvolvimento e de coordenação, problemas de integração sensorial e sensório-motora, consciência e controle corporal (déficit de esquema corporal).

As crianças com disfunção motora apresentarão limitações para exploração do ambiente em que vivem. Tais limitações podem acarretar em um déficit na exploração sensorial e, conseqüentemente, em deficiências e lacunas nas áreas perceptivas e cognitivas. Contudo, vale ressaltar que, aparentemente, o déficit de percepção apresentado pela criança com PC pode ser desencadeado simplesmente por falta de experiência e não por problemas motores. Assim, seu esquema corporal normalmente fica afetado.

Por diversos anos, pesquisadores interessados em compreender o desenvolvimento infantil buscaram desenvolver testes fidedignos que permitissem detectar problemas e atrasos em crianças.

Ainda que date do fim do século passado a pressuposição de que o desenho tem implicações psicológicas, só no século XX o desenho da figura humana passou a ser analisado sistematicamente como medida de maturidade. Mas o primeiro teste, delineado especificamente para avaliar o desenho da figura humana como medida de desenvolvimento intelectual, foi de Florence Goodenough, em 1926.

Desde Goodenough (1926/1964) que propôs o desenho de figura humana como medida de inteligência até a atualidade, esta técnica foi objeto de muitos estudos nos mais diferentes contextos, acompanhando as modificações conceituais das teorias psicológicas, sendo reconhecido até hoje como um instrumento válido e preciso para se conhecer a habilidade verbal, visomotora, de discriminação visual e capacidade conceitual de crianças.

O método baseia-se no número de detalhes incluídos no desenho e na sua precisão, que estão diretamente relacionados com o nível intelectual da criança. A partir do número de itens, são determinados a idade mental e o quociente intelectual.

Apesar das mudanças ocorridas nas formas de interpretação e de análise dos desenhos de figura humana (DFH), a literatura internacional sobre o mesmo atesta sua importância e grande utilização como método de avaliação de diferentes funções psicológicas no processo do desenvolvimento humano. Paralelamente a esta realidade, no entanto, no contexto brasileiro não se encontram muitos estudos sobre as possibilidades e os limites informativos do DFH enquanto instrumento avaliativo, sobretudo ao se considerar as múltiplas formas analíticas existentes.

Um estudo desenvolvido por Marques et al. (2002) teve como objetivo buscar subsídios técnicos para examinar a adequação do uso do Teste de Goodenough na atual realidade brasileira, abordando-se, para tanto, o índice de acordo entre avaliadores e a estabilidade temporal dos resultados após um período de seis meses. Os resultados encontrados neste estudo apontaram elevada confiabilidade desta técnica mesmo para os dias atuais e em nosso contexto sócio-cultural específico.

Baseando-se nesse pressuposto, Corrêa, Costa e Fernandes (2004) utilizaram em seu estudo um teste baseado no desenho da figura humana de Goodenough para avaliar a imagem corporal e o esquema corporal de crianças portadoras de paralisia cerebral espástica do tipo quadriplégico. Os resultados mostraram que todas as crianças com PC avaliadas apresentaram atraso na relação da imagem de si mesmo, ou seja, tiveram alteração na sua imagem e esquema corporais.

Assim, é de suma importância que os fisioterapeutas que trabalham com crianças portadoras de PC detectem possíveis distúrbios de sua imagem e esquema corporais para que possam oferecer ao paciente um tratamento mais eficiente, que permita que a criança adquira conhecimento do próprio corpo e, desta forma, sejam capazes de corrigir, conscientemente, os desvios de postura e anormalidades motoras apresentados.

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