Pesquisa Científica
Acupuntura Auricular e Auriculoterapia


Maria Carolina Cabral de Albuquerque, Daniela Vincci Lopes



Nos últimos anos, diversos pesquisadores vêm se interessando pelas técnicas de diagnóstico e terapias orientais. A auriculoterapia é uma destas técnicas, que consiste na utilização do pavilhão auricular com fins terapêuticos. Sua utilização é explicada pela inervação muito rica e pelas múltiplas conexões que ela apresenta com o sistema nervoso central.

1. Histórico

A acupuntura existe desde cerca de cinco mil anos atrás, quando o Imperador Amarelo Huang (ou Huang ti) pediu a um médico que relatasse tudo sobre a natureza, o Tao e as leis da acupuntura. Mais tarde, seus questionamentos para o médico e as respostas dele formaram o primeiro registro sobre a acupuntura.

Em 1973, foi encontrado um livro antigo do período Han em escavações realizadas na província de Hu Nan. De acordo com alguns especialistas, esta obra provavelmente é a mais antiga que falou sobre o estudo dos canais e vasos no tratamento com a moxibustão. Este livro foi escrito em duas partes que foram chamadas de Os Onze Canais dos Braços e das Pernas na Moxibbustão e Os Onze Canais Yin e Yang na Moxibustão. Na segunda parte do livro fala-se que: “Os membros, os olhos, a face e a garganta, todos se reúnem, através dos canais e vasos, na orelha”.

Os primeiros a falar sobre a relação entre o pavilhão auricular, os Zang Fu, os canais e colaterais e o resto do organismo, foram provavelmente os chineses, que, além disso, transmitiram os fundamentos teóricos para o diagnóstico e tratamento através do pavilhão.

Em 1958, um trabalho escrito por Paul Nogier foi bem aceito pelos chineses, originando assim as duas linhas terapêuticas da auriculoterapia: a chinesa, ou oriental, e a francesa, ou ocidental.

Para a linha francesa, existem pontos fisiológicos e patológicos e o sistema nervoso que sustenta a auriculoterapia, que seria um sistema flutuante, onde os pontos não são fixos e só se refletem na orelha quando existe um distúrbio correspondente. Já na auriculoterapia chinesa, é levada em conta a influência dos meridianos que passam próximos à orelha, pratica-se rotineiramente a tonificação e a sedação dos pontos, mas dificilmente se fala em “pontos mudando de lugar”.

Em 1957, na França, Nogier divulgou trabalhos que mostram a relação entre o pavilhão auricular e o resto do organismo, relatando casos clínicos e os bons resultados obtidos. Nogier também observou, através de povos do mediterrâneo, a utilização de pequenas cauterizações na orelha para o tratamento de muitas doenças, descobrindo assim pontos curativos. Depois de estudá-los descreveu a relação entre a localização desses pontos no pavilhão auricular e a posição de um feto no útero materno, próximo ao momento do nascimento, contribuindo assim para o avanço da auriculoterapia.

2. Anatomia do Pavilhão Auricular

O pavilhão auricular possui formato oval, com a extremidade maior voltada para cima e a superfície lateral levemente côncava e inclinada para frente.

Está localizado nos dois lados da cabeça, posteriormente à articulação têmporomandibular (ATM) e à região parotídea, anterior à região mastóide e abaixo da temporal.

O pavilhão auricular é formado de tecido fibrocartilaginoso, ligamentos, músculos e tecido adiposo. A parte inferior do pavilhão é rica em vasos sanguíneos, linfáticos e nervos. Já os terços superiores são formados essencialmente por cartilagem. O lóbulo da orelha apresenta, na maior parte de sua constituição, tecido adiposo e conjuntivo.

O sistema sanguíneo da orelha é abundante, sendo o suprimento arterial realizado principalmente através da artéria temporal superficial, auricular posterior e da carótida externa. As veias acompanham as artérias e possuem a mesma designação, com exceção da veia jugular posterior que drena as áreas irrigadas pela artéria carótida.

Os vasos linfáticos da face anterior desembocam nos gânglios linfáticos da parótida e muitos dos vasos linfáticos da face posterior desembocam em linfonodos retroauriculares.

A inervação do pavilhão auricular é rica. Os nervos motores se originam do nervo facial e os nervos sensitivos possuem origem dupla. Os ramos do nervo auriculotemporal vão para a parte anterior do hélix e para o trago e o ramo auricular do plexo cervical superficial inerva o restante do pavilhão auricular.

O pavilhão auricular é um órgão isolado que possui relações com os outros órgãos e regiões do corpo. Cada um dos pontos auriculares apresenta relação direta com um ponto cerebral que está ligado através da rede do sistema nervoso a determinado órgão ou região da soma, comandando suas funções. Essa relação torna a auriculoterapia um recurso bastante utilizável para tratar variadas enfermidades.

O pavilhão auricular apresenta várias depressões e saliências cartilaginosas. Nas partes mais profundas estão localizados pontos relacionados aos órgãos internos e as partes salientes apresentam pontos que se relacionam principalmente a estruturas ósseas do corpo.

O pavilhão auricular apresenta diversas estruturas: hélice, tubérculo de Darwin, escafa, ante-hélice, ramo superior da ante-hélice, ramo inferior da ante-hélice, fossa triangular, antítrago, trago, lóbulo, concha, incisura do antitrago e da ante-hélice, incisura intertrágica e incisura supratrágica.

3. Pontos Auriculares

A distribuição dos pontos auriculares no pavilhão é comparada à posição de um feto, próximo ao momento do nascimento, no útero materno, de forma que os pontos ficam localizados na orelha nos lugares correspondentes aos órgãos do feto.

Os pontos auriculares são regiões específicas do pavilhão auricular que repercutem a atividade funcional de todas as partes do corpo humano. Estão relacionados energética e funcionalmente com os canais, colaterais e Zang Fu, permitindo o diagnóstico e o tratamento através da sua utilização.

Ao estimular um ponto auricular, o paciente pode sentir diferentes manifestações, como a sensação de corrente, energia que corre pelo corpo, ou, em geral, calor que corre pelo pavilhão auricular e que se reflete em partes específicas do corpo. Através de experiências realizadas foi possível determinar a relação entre as áreas por onde passam tais sensações com o percurso dos canais e colaterais.

O sistema de canais e colaterais distribui-se por todo o corpo conectando cada tecido, órgão e orifício do corpo humano, dando-lhe um aspecto de sistema. Está baseado no movimento do sangue e da energia, na manutenção do equilíbrio yin e yang, no fortalecimento da energia antipatogênica e na expulsão da energia patogênica, mantendo a saúde.

Quando se estabelece um estado patológico no indivíduo, a energia perversa entra em um canal e um colateral ou em algum órgão, obstruindo-o. Com a punção de pontos auriculares ou sistêmicos tenta-se desobstrui-lo, com a finalidade de restaurar a atividade funcional de todo o corpo e o equilíbrio entre yin e yang, tratando assim a enfermidade.

4. Detecção

O método pelo qual se distinguem pontos dolorosos no pavilhão auricular através da submissão desses pontos a pressões repetidas é chamado de detecção.

Antes de se realizar a inspeção do pavilhão auricular, a orelha não pode ter sido lavada, esfregada, manipulada ou massageada, para que sejam mantidos o brilho, a cor e a forma natural. A inspeção deve ser realizada perante luz natural e deve-se evitar ao máximo o contato das mãos para não causar sinais reativos falsos que dificultarão o exame.

Caso haja acúmulo de resíduos em algum local do pavilhão, este deve ser inspecionado por último, podendo ser limpo com cotonete, cuidando para não retirar as substâncias reativas positivas, como a seborréia, junto com os resíduos.

Ao se estabelecer um estado patológico em algum local do corpo humano, ocorrem reações positivas reflexas específicas de cada enfermidade, podendo variar de localização e caráter.

A análise dessas reações cutâneas pode levar ao diagnóstico preciso das afecções que o paciente apresenta. Esta análise pode ser realizada através da inspeção visual ou com ajuda de aparelhos que localizam pontos de acupuntura.

Na inspeção, devem ser observados a posição, as alterações de cores, as manchas, os pontos de escamação, os pontos com exantema, a oleosidade e as dilatações de vasos.

Pela pressão, são localizados pontos dolorosos e alterações da cor. Essa exploração é realizada com a utilização do palpador de pressão que, se tratando de dor, é a ferramenta mais adequada para se achar os pontos que precisam ser tratados.

Através da exploração com o detector elétrico, que observa a resistência elétrica dos pontos, são localizados os pontos patológicos que apresentam resistência elétrica mais baixa do que os pontos vizinhos.

5. Técnicas de Tratamento

Antes de iniciar o tratamento, deve-se fazer a localização exata dos pontos e a assepsia, através da limpeza do pavilhão auricular, usando algodão com álcool. Após esse procedimento, o terapeuta deverá escolher entre as técnicas de tratamentos conhecidas.

O simples ato de se massagear os pontos dolorosos através de uma pressão, já pode atuar na sensibilidade desses pontos, passando por duas fases: na primeira, ocorre o aumento imediato e transitório da dor e, na segunda, acontece a diminuição dolorosa até o seu desaparecimento. O ponto deve ser massageado até o final das duas fases, parra assim alcançar os efeitos definitivos.

As agulhas semipermanentes são mais usadas do que as agulhas sistêmicas na auriculoterapia. Isto se deve ao fato de serem descartáveis e apresentarem a vantagem de poder ficar na orelha do paciente até sete dias após sua fixação com micropore. É o tempo de fixação das agulhas semipermanentes que trará o resultado desejado, ao contrário das agulhas sistêmicas que têm efeito influenciado pelo ângulo de inserção da agulha e pela profundidade.

Após a fixação das agulhas semipermanentes, o paciente deve estimular cada ponto através de uma pressão, realizando esse procedimento todo dia de duas a três vezes, para aumentar o estímulo e a eficácia do tratamento.

Deve-se tratar uma orelha em cada sessão, iniciando o tratamento na orelha dominante, sendo o lado direito na pessoa destra, o esquerdo na canhota e, em pessoas ambidestras, não importa o lado.

A duração do tratamento e a freqüência das sessões variam de acordo com o quadro do paciente.

6. Mecanismos fisiológicos

Segundo a medicina tradicional chinesa, a acupuntura não exerce efeito em condições normais e sim quando existe algum distúrbio funcional.

O potencial elétrico das agulhas age nas terminações nervosas livres que existem no ponto que foi picado, alterando assim o potencial da membrana celular, desencadeando o potencial de ação e a condução do estímulo nervoso. Os principais tipos de fibras que estão relacionados com a propagação do estímulo da acupuntura são as fibras A-delta e as fibras C.

A profundidade da inserção da agulha interfere em seu efeito. Se for inserida superficialmente, atingirá mais os receptores nervosos associados às fibras A-delta que são mediadores das sensações de dores agudas e da temperatura; já a inserção profunda estimulará as fibras nervosas do fuso muscular e fibras A-delta e C, utilizadas em “doenças profundas”.

Ao nível do corno posterior da medula os aferentes conduzidos pelas fibras somáticas fazem sinapses com neurônios motores homo ou contralaterais formando o arco reflexo somatovisceral. Esta via é uma dentre as várias vias que a acupuntura utiliza para atuar sobre os órgãos internos, sendo importante porque tem relação com a ação da acupuntura sobre os vasos sanguíneos periféricos. As fibras somáticas também fazem sinapses com neurônios do trato próprio-espinhal, que faz associações dos segmentos superiores com os inferiores, conectando assim os plexos braquial, lombar e sacral.

Da medula, os estímulos também podem ser enviados para o encéfalo, onde ativam ou inibem muitas áreas importantes, dentre elas a formação reticular através da via trato espinorreticular e o trato paleoespinotalâmico que, no nível do hipotálamo, interage com a modulação do sistema nervoso autônomo.

A estimulação através da acupuntura libera opióides endógenos que são essenciais na indução de alterações funcionais de diferentes órgãos e sistemas. Existem vários tipos de opióides endógenos que possuem diferentes afinidades com diferentes receptores de opióides.

A β-endorfina tem grande afinidade com o receptor μ e é importante para o controle álgico, na temperatura do corpo e na regulação da pressão arterial. Pode ser liberada por diferentes sistemas provavelmente nos terminais nervosos em um sistema β-endorfinérgico estendendo-se do hipotálamo para a substancia cinzenta periaquedutal no tronco encefálico.

Após a inserção das agulhas, há um aumento das proteínas C-fos (que são marcadores genéticos da atividade elétrica do neurônio do SNC) em neurônios que possuem encefalinas e β-endorfinas, provocando a redução da liberação de substâncias neuroexcitatórias (glutamato) e o aumento das neuroinibitórias (acetilcolina e noradrenalina). Dessa forma, ocorre a diminuição da atividade elétrica do nervo e a conseqüente diminuição da transmissão dolorosa no SNC.

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