| Condicionamento físico em crianças com PC |
Fernanda Vieira Abatepaulo, Talita Roberta Degrandi Preti, Natália Spina Cunha, Daniela Vincci Lopes A paralisia cerebral, também conhecida como encefalopatia crônica não progressiva da infância, é uma incapacidade motora resultante de lesão estática e distúrbios significativos no sistema piramidal, extrapiramidal ou distúrbios em ambos os sistemas, ocorridas no período pré, peri ou pós-natal que afeta o sistema nervoso em período de maturação estrutural e funcional. Como ocorre em um período em que a criança está em desenvolvimento constante essa doença pode comprometer o processo de aquisição de habilidades, dificultando, assim, a realização de atividades facilmente realizadas por crianças normais. A paralisia cerebral afeta o movimento, a coordenação, a postura e a cognição em graus diferentes e que se iniciam durante o desenvolvimento do cérebro. Gera muitas incapacidades, sendo a maior causa de desabilidades em crianças. Conforme a criança com paralisia cerebral cresce, ela tende a tornar-se menos hábil para realizar funções como andar por longas distâncias, sentar-se durante o dia todo na escola, manter boa postura e alinhamento adequado, proporcionando uma piora da independência e da qualidade de vida, tornando-se menos condicionada para realizar suas funções. Desta forma a proposta deste estudo foi de revisar o que há na literatura sobre o impacto da paralisia cerebral sobre o condicionamento cardiopulmonar destas crianças. Como e se a gravidade do comprometimento neuromotor pode influenciar no desempenho de atividades rotineiras e sociais e na independência dos portadores de PC. Além de observar se existem diferenças entre o condicionamento de crianças sem deficiências e as com paralisia cerebral. A paralisia cerebral (PC) é uma lesão cerebral não progressiva que causa alterações variadas na coordenação, tônus e força muscular, gerando uma incapacidade da pessoa em manter posturas normais e em executar movimentos normais. A PC pode comprometer o processo de aprendizagem, uma vez que a lesão ocorre em uma fase de desenvolvimento constante da criança, resultando em dificuldades de realizar atividades, que crianças com desenvolvimento normal realizam com facilidade. Conforme a criança com paralisia cerebral cresce, ela tende a tornar-se menos hábil para realizar funções como andar por longas distâncias, sentar-se durante o dia todo na escola, manter boa postura e alinhamento adequado, proporcionando uma piora da independência e da qualidade de vida, tornando-as menos condicionadas para realizar suas funções. A paralisia cerebral compreende uma série heterogênea de síndromes clínicas caracterizadas por ações motoras e mecanismos posturais anormais. Estas síndromes são causadas por anormalidades neuropatológicas não progressivas do cérebro em desenvolvimento. O termo paralisia cerebral sugere uma disfunção motora secundária a uma anomalia no sistema nervoso central. Esta anomalia é estática. As alterações motoras são diferenciadas e classificadas na clínica de acordo com a localização da parte do corpo comprometida e segundo o tônus muscular e movimentos involuntários. De acordo com a localização, a PC pode ser classificada como hemiplegia, quando um dos lados do corpo é comprometido; diplegia, quando as extremidades inferiores são mais acometidas que as superiores; quadriplegia, quando as quatro extremidades são comprometidas de forma relativamente proporcional. De acordo com o tônus, a PC pode ser classificada em espástica, com características de lesão do neurônio motor superior, hiperreflexia, fraqueza muscular e diminuição da destreza; discinética, com movimentos de atetose, coréia e distonia; atáxica, com sinais de comprometimento do cerebelo, caracterizada por disfunção motora acentuada, incoordenação e distúrbio postural; e atônica, com sinais de desenvolvimento extremamente lento. A PC afeta o indivíduo de variadas formas, de acordo com a região do sistema nervoso afetada, provocando alterações neuromusculares que se manifestam com padrões posturais e movimentos que podem afetar o desempenho funcional desses indivíduos. Sendo assim, a PC pode influenciar na aprendizagem e desempenho de atividades motoras básicas, como rolar, sentar, engatinhar, andar, até em atividades de vida diária como tomar banho, alimentar-se, vestir-se, locomover-se em diversos ambientes. Além disso, o desempenho funcional da criança com PC é influenciado não só por fatores intrínsecos, como também pelas exigências da tarefa e pelo contexto do ambiente em que a criança interage. A gravidade do comprometimento neuromotor em crianças com PC tem relação direta sobre o desempenho de atividades e tarefas da rotina diária. A gravidade do comprometimento influencia não só na realização de atividades de vida diária como também nas atividades sociais, isto porque estas crianças encontram dificuldade em se envolver e realizar com sucesso as atividades comuns às de outras crianças, excluindo-as do grupo. O incentivo da atividade física desde a infância é de grande importância para a promoção da saúde do indivíduo, uma vez que eventos que dão origem a doenças crônicas no adulto, como hipertensão arterial, dislipidemias, resistência a insulina e intolerância à glicose, podem ter início nesta faixa etária. Porém, os benefícios advindos da atividade física são temporários e somente são mantidos com atividade física regular e consistente. Portanto, para que se tenha melhor resultado a atividade física deve iniciar-se na infância e ter continuidade por toda a vida. O estilo de vida dos pais também influencia na criança. Alguns estudos verificaram que quando as mães são ativas os filhos são duas vezes mais ativos em comparação aos das mães inativas, e quando os pais são ativos os filhos são 5,8 vezes mais ativos do que filhos de pais inativos. Além disso, o grau de escolaridade interfere na prática de atividade física. Quanto maior o grau de escolaridade maior a prática de atividade física. A criança em idade escolar está na melhor fase de desenvolvimento de aptidão física e para aquisição de uma vida ativa. A atividade física exerce tração e pressão sobre o osso e esta como estímulo formativo sobre o osso. Aumenta o diâmetro, a seção transversa, o perímetro, o volume, o peso e estimula o crescimento na largura do osso. Também ocorre um aumento da espessura da camada cortical e da parte esponjosa do osso, aumentando sua tolerância às solicitações externas. O mesmo ocorre com cartilagens, ligamentos e tendões, chamado hipertrofia por atividade. Há uma melhora na mobilidade e flexibilidade articular através de uma adaptação morfológica das estruturas ósseas e articulares a solicitações funcionais especificas. Atrofia por inatividade com diminuição do tecido ósseo pode ocorrer com a falta de treinamento, levando à diminuição da mobilidade articular. O estado nutricional é apontado como fator fundamental na atividade física da criança. Crianças obesas apresentam menores níveis de atividade física quando comparados a crianças desnutridas e eutróficas. Isto porque o gasto energético e o esforço de uma criança obesa são maiores do que os de uma criança não obesa. A criança obesa, além disso, é mais suscetível a lesões, ao agravamento de alterações posturais, estiramento, torções e fraturas. As crianças obesas sedentárias apresentam um maior requerimento do sistema cardiovascular e o peso corporal maior resulta em maior desgaste com conseqüente aumento da resposta de FC, o que gera maior sobrecarga ao sistema cardiovascular, maior incapacidade física e limitação cardiorrespiratória, sendo um importante fator de risco para doenças relacionadas a esse sistema. Sabe-se que o coração de um indivíduo altamente treinado, está adaptado às exigências de esforços máximos e, em repouso, apresenta uma freqüência muito baixa de batimentos, que se encontram entre 30 a 40 batimentos. Nesses casos, a duração da sístole e da diástole é maior e o consumo de oxigênio de miocárdio é menor. Com o treinamento prolongado a freqüência cardíaca e a pressão sistólica diminuem e as alterações de pressão devidas à idade são menos acentuadas. Tanto o volume sangüíneo que passa pelo músculo quanto a velocidade do fluxo de sangue, são menores. Como no indivíduo treinado o número de batimentos e a quantidade de esforço relativa à pressão e ao volume sangüíneo são menores, o trabalho realizado pelo coração em repouso é também menor. O coração trabalha em um regime de economia em repouso e assim aumentam suas reservas energéticas e sua capacidade máxima de pressão e volume sangüíneo é maior do que no coração de um indivíduo sedentário. Quanto maior o volume do coração, menor é o trabalho realizado por ele. O treinamento também age sobre o sistema neurovegetativo, através da adaptação dos órgãos e dos processos de recuperação após o esforço. Um dos sinais dos efeitos morfológicos e funcionais do treinamento sobre os órgãos é a capacidade do organismo treinado se adaptar mais rapidamente ao esforço do que o não treinado. A adaptação do sistema cardiopulmonar ao esforço, que ocorre em menos tempo, devido ao maior rendimento do coração e do aparelho respiratório treinado. Através da ação do sistema neurovegetativo, há uma economia das funções dos sistemas cardiovascular e respiratório, o que se torna um fator determinante para o aumento do rendimento. Um estilo de vida saudável tem como principal componente a atividade física regular e que esta contribui para a otimização da saúde através da realização de exercícios. A prática de atividades desportivas propícias traz benefícios para a saúde, socialização, lazer e aquisição de aptidões que melhoram a auto-estima e confiança da criança. Assim como a criança normal precisa ter um condicionamento físico adequado para ter uma boa qualidade de vida, as crianças com PC também precisam. Conhecendo os benefícios que o treino pode trazer para a saúde e para o melhor desempenho de atividades rotineiras, é fundamental conhecer quais as limitações da criança com PC e se estas afetam seu condicionamento. Pessoas com PC necessitam de um número maior de musculatura ativa para realizar atividades quando comparadas com pessoas sem deficiência, devido à tensão da musculatura e dos movimentos involuntários. Um dos efeitos do treino na musculatura esquelética é o aumento da efetividade, que ocorre devido à maior economia de energia nos grupos musculares treinados. Assim, o gasto energético, o consumo de O2, a concentração de lactato e a fadiga são menores. Com o treino ocorre também aumento de certas substâncias como glicogênio, que serve de reserva energética, em um músculo treinado. A velocidade da síntese de glicogênio a partir da glucose é maior, com conseqüente melhor aproveitamento do glicogênio armazenado. O fígado treinado armazena maiores quantidades de glicogênio, que será utilizado em esforços de longa duração. Por fim, apresenta ainda maior número de mitocôndrias e sua capacidade oxidativa e assimilação de lactato é maior. De acordo com a literatura os pacientes hemiplégicos apresentam uma capacidade aeróbia menor com conseqüente gasto energético maior na execução de qualquer atividade, fazendo com que tenham menor resistência ao exercício e se tornem cada vez mais sedentários e excluídos socialmente. Devido à diminuição de força muscular os pacientes hemiplégicos apresentam alterações importantes na deambulação, nas atividades de rotina, o que os tornam ainda mais dependentes. O treino aeróbio em pacientes hemiplégicos vem surtindo efeito, com aumento da capacidade funcional, redução do gasto energético na realização das atividades de vida diária, maior recrutamento de unidades motoras, diminuição do risco de doenças cardiovasculares, melhor controle da pressão arterial e freqüência cardíaca. Assim, a musculação é uma alternativa segura para aumentar a capacidade funcional destes pacientes e os exercícios aeróbios podem melhorar a habilidade do paciente em executar uma atividade, contribuindo para uma melhor qualidade de vida. A velocidade da marcha tem sido medida como demonstrativa da performance da marcha, independência, habilidades para atividades funcionais e sociais e capacidade motora. O treino aeróbio resulta em capilarização da musculatura esquelética treinada e a capacidade oxidativa elevada do tecido, favorecendo para um gradiente arteriovenoso de oxigênio maior, mesmo em repouso ou em atividades de media e longa duração. Além disso, como a utilização do oxigênio contido no sangue é melhor, o sistema cardiorrespiratório do organismo treinado trabalha mais economicamente. Com o treinamento de resistência ocorre no organismo humano uma redução das lipoproteínas de baixa densidade e um aumento das lipoproteínas de alta densidade, o que funciona como mecanismo de proteção contra alterações arterioscleróticas. Além disso, o envelhecimento natural provoca uma diminuição da função e estudos relatam que altos níveis de capacidade física, força muscular e condicionamento cardiorrespiratório podem amenizar esta queda e manter a independência física na idade avançada. Os pacientes com paralisia cerebral apresentam uma queda da função não só pelo envelhecimento natural (com diminuição de força e resistência) mas também pelas alterações características à patologia (como diminuição da mobilidade, espasticidade, contraturas e dor). Conseqüentemente eles precisam manter um nível mais elevado de aptidão física que o restante da população. Como resultado do aumento dessas mudanças há a probabilidade de um declínio acelerado da função que pode ser afetado adversamente por uma perda progressiva de condicionamento. Programas de força muscular para pacientes com PC resultaram em melhora na habilidade para realizar as demandas das tarefas da rotina diária e permitir que eles tenham uma maior independência física. Manter o nível máximo de força em pacientes com PC é de grande relevância, uma vez que a diminuição ou perda de força pode comprometer as habilidades do indivíduo para cuidar de si mesmo, trabalhar, se engajar em eventos sociais, estas tarefas comuns passam a exigir um esforço extra com aumento da sobrecarga e fadiga. A capacidade vital e a capacidade respiratória máxima aumentam com o treinamento. As reservas de ventilação, o valor de volume-minuto e o consumo máximo de oxigênio no sistema respiratório de um indivíduo treinado são maiores do que no não treinado. A taxa percentual de assimilação máxima de O2 aumenta com o treinamento de resistência e pode ser alcançada com atividades de duração mais longas. O treinamento também provoca um aumento na utilização dos ácidos graxos, promovendo um quociente respiratório menor durante atividades de longa duração. Um estudo realizado com dez crianças (cinco de cada sexo) com diplegia espástica e dez crianças de um grupo controle, avaliou a atividade física diária e mensurando o total de energia despendida. Os resultados revelaram que as crianças com PC tendem a ser menores, mais obesas, menos ativas do que o grupo controle e que as atividades realizadas por elas não têm intensidade suficiente para melhorar a aptidão física. Crianças com PC do tipo quadriplegia ou diplegia espástica que utilizam andador e bengala para realizar a marcha apresentam a freqüência cardíaca extremamente alta com os dois auxiliares da marcha. Pode-se supor que devido a um pobre condicionamento físico observado nas crianças com PC há aumento da freqüência cardíaca. Devido à escassa quantidade de pesquisas envolvendo pessoas com PC, se torna difícil à prescrição da quantidade de atividade física apropriada para trazer os benefícios conhecidos à saúde. Sabe-se que para o restante da população são recomendados 30 minutos por dia de atividade física várias vezes por semana, mas não se sabe se esses parâmetros alcançariam os mesmos benefícios em portadores de PC. Além disso, a literatura é pobre no que diz respeito aos tipos de exercícios para pessoas com PC. Fala-se muito em caminhada como forma segura e conveniente para ganhar condicionamento cardiorrespiratório. No entanto, portadores de PC geralmente não são capazes ou tem dificuldades de andar, ou não conseguem caminhar por longa distância, ou ainda atingir um nível de intensidade que proporcione o ganho de condicionamento. Ainda é vago o real resultado do treino e do condicionamento na saúde das pessoas com PC, como redução da massa gorda, redução lipídica no sangue, pressão arterial, melhora da mobilidade funcional, melhora do ânimo, independência e melhora da qualidade de vida. Também não se sabe se os mesmos benefícios que o condicionamento traz para a população em geral serão similares na pessoa com PC. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS American Academy of Pediatrics. Committee on sports medicine and fitness. Intensive training and sports specialization in young athletes. Pediatrics 2000; 106(1): 154-7. Cooper, R.A., Quatrano, L.A., Axelson, P.W., Harlan, W., Stineman, M., Franklin, B.A., Krause, J.S., Bach, J., Chambers, H., Chao, E.Y.S., Alexander, M. & Painter, P. 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