Pesquisa Científica
Massagem Pediátrica Chinesa


Aline Euzébio Abadia, Daniela Vincci Lopes



A massagem pediátrica chinesa (MPC) fundamenta-se nos conceitos da medicina chinesa tradicional e é uma terapia eficiente para crianças, desde o parto até aproximadamente doze anos de idade por constituir-se de métodos não invasivos que visam obter menos resistência ao tratamento e menos efeitos colaterais, visto que, nas crianças, são poucos os mecanismos de defesa atuantes.

Tal técnica foi desenvolvida a partir da massagem Tui Na, uma das artes curativas da medicina chinesa tradicional que se caracteriza como sendo uma forma de estimular a saúde e os desenvolvimentos físico e mental sadios da criança. Além disso, a criança pode ainda desfrutar de afagos e carinhos.

1. Histórico

A existência da medicina chinesa é de aproximadamente de três a cinco mil anos, mas a identificação de uma data específica da utilização da MPC torna-se difícil devido à sobrevivência de pouco material escrito nessas épocas inicias.

O achado literário mais antigo sobre a MPC é da dinastia Sui/Tang (581-1644 d.C.), quando foram publicados livros que discutiam o uso das técnicas de massagem para condições infantis. Durante a dinastia Yuan (1279-1368) foi criado o departamento de massagem pediátrica no Instituto dos Médicos Imperiais. O principal período de avanço e ascensão da MPC foi durante a dinastia Ming (1368-1644), quando ela foi organizada como disciplina acadêmica dentro das instituições médicas, sendo a pediatria reconhecida como uma especialidade clínica do campo da massagem. Durante esta época, o progresso clínico e teórico permitiu a criação de um sistema independente de diagnóstico, técnicas de manipulação, pontos e tratamentos. No final da dinastia Quing (1644-1911), a mudança do ambiente político gerou alterações nos sistema social, político e econômico da China, exercendo impacto significativo sobre a prática da medicina que, sem o apoio governamental, teve pouca organização centralizada e manteve-se sendo ensinada como tradição familiar.

Após a Revolução Comunista de 1949, o governo reorganizou e promoveu novamente o uso da medicina chinesa tradicional, incluindo a massagem pediátrica em tal organização devido à sua valorização. Durante a Revolução Cultural (1960-1970) houve um declínio agudo nos avanços feitos pela medicina chinesa. Somente após 1979 a opressão da Revolução Cultural foi amenizada, possibilitando a reconstrução da medicina chinesa. A massagem pediátrica mantém-se até hoje sendo um aspecto importante do completo sistema representado pela medicina chinesa tradicional.

2. Indicações

As indicações da MPC abrangem desde o seu uso em tratamentos de indisposições e doenças nos estados agudos ou crônicos, até como meio de estímulo a um desenvolvimento mental e físico saudáveis, agindo de forma profilática nos cuidados gerais da saúde.

Dentre as indisposições e as doenças agudas simples que respondem bem à MPC encontram-se: cólica, resfriado comum, constipação, tosse, bronquite aguda, diarréia, dificuldade digestiva, choro noturno, agitação, febre, cefaléia, dor de garganta, dor de dente e dentição, vômitos, edema, sangramento nasal e de gengiva não traumáticos, furúnculos, fissuras nos lábios e língua, torcicolo, transpiração, regurgitação do leite, enurese noturna, obstrução intestinal por vermes.

As doenças crônicas beneficiadas pelo uso da MPC são: distensão e dor abdominal, asma, bronquite crônica, catapora, sarampo, convulsões, epilepsia, disenteria, dor de ouvido, urticária, icterícia, caxumba, terror noturno, pneumonia, rubéola, diabetes, estrabismo convergente e divergente, estomatite, aftas, hérnia, hepatite infecciosa, paralisia, prolapso do reto, desnutrição e raquitismo. Nos casos graves, a MPC pode ser associada a outras terapias. A MPC tem importância significante quando usada com o intuito de estimular o desenvolvimento físico e mental sadios, em casos como: atraso no fechamento da moleira, flacidez e rigidez mioarticular e retardo no desenvolvimento motor e da linguagem.

3. Contra Indicações

A existência de inúmeras situações clínicas impossibilitou a criação de uma lista completa de contra indicações para o uso da MPC. O princípio orientador do uso ou não da MPC considera a possibilidade de tal técnica ser prejudicial à criança, podendo provocar o aumento do dano.

A massagem não deve ser realizada contra a vontade da criança e quando a mesma não estiver bem, com exceção das massagens específicas para o alívio de sintomas de doenças.

Existem contra indicações comuns do uso da MPC como quando não houver diagnóstico comprovado, o local a ser realizado for diretamente sobre tumores, doenças de pele agudas, feridas abertas, traumas de pele (queimaduras) ou em áreas que estiverem sensibilizadas. Em casos de doenças infecciosas agudas (hepatite, tuberculose, difteria, febre tifóide), hemorragia interna, trauma da medula espinhal e quando for administrada medicação forte, principalmente analgésica, a MPC também é contra indicada.

4. Princípios Energéticos Chineses

Na medicina ocidental, o crescente avanço da tecnologia médica fez com que a fosse enfatizado estritamente os aspectos físicos do corpo humano, intervindo apenas quando algum dano físico significativo fosse gerado através de um processo de doença. Já os conceitos da medicina oriental chinesa, que não contaram com o suporte tecnológico ocidental devido ao fato de terem sido criados de três a cinco mil anos, enfatizam o fluxo e o equilíbrio energéticos do corpo humano, intervindo quando ocorrem os primeiros sinais de desequilíbrios e antes de um dano físico importante ao corpo.

Os chineses, para representarem os vários tipos de energia encontrados no corpo humano, utilizaram o termo Ch´i ou Qi. Tais energias fluem no corpo como uma vibração sutil que pode ser sentida, mas não pode ser mensurada ou vista. O Qi suficiente e equilibrado é sinônimo de saúde, mas caso alguma alteração física ou emocional o desequilibre, seja em excesso ou em insuficiência, pode iniciar-se uma doença. Assim sendo, o objetivo da medicina chinesa é a constante busca pelo equilíbrio e harmonia do Qi, lidando com o possível desequilíbrio num estágio inicial antes que a estagnação do Qi e sintomas físicos maiores sejam desenvolvidos.

Na filosofia chinesa, o Qi representa energias inversas que ao mesmo tempo se complementam. Tais energias descrevem as polaridades básicas opostas, que em termos são denominadas Yin e Yang, representando aspectos negativos e positivos respectivamente. Yin e Yang existem somente em relação um ao outro e, interagindo entre si, promovem uma contínua transformação, que representa a característica básica da vida nos conceitos chineses.

A medicina tradicional chinesa utiliza ainda a teoria dos cinco elementos, composta pelos elementos Água, Fogo, Madeira, Terra e Metal. Cada um dos cinco elementos representa tipos específicos de energia e a associação deles reflete as variadas formas de interação entre uma pessoa e seu meio ambiente. A explicação de determinadas interações é facilitada através da associação de cada elemento a uma estação do ano, uma cor, um tipo de condição climática, um sabor e uma emoção. Além disso, cada elemento relaciona-se com um órgão Yin e Yang, formando um par e os governando.

As vias de circulação do Qi e do Xue (sangue) recebem a denominação de Jing Luo, termo que representa o complexo sistema de meridianos e suas ramificações. Esses meridianos fazem comunicação internamente com os Zang Fu (órgãos e vísceras, respectivamente) e externamente com a superfície corporal (pele, músculos, tendões, vasos, terminações nervosas) nos quais se encontram os pontos de acupuntura. Os pontos de acupuntura são pontos específicos onde o Qi e o Xue dos canais se externalizam e se comunicam com a superfície, tornando possível tratar doenças a partir da estimulação de tais pontos, buscando um equilíbrio energético.

Sobre os meridianos, os mesmos se diferem quando comparados entre adultos e crianças. Nos adultos, eles iniciam-se nas mãos ou nos pés e seguem rumo ao tronco. Já nas crianças, os meridianos, por não estarem totalmente desenvolvidos, se encontram somente nos dedos das mãos.

Cada um dos cinco dedos liga-se a um dos cinco elementos, formando uma conseqüente união com os órgãos influenciados pelas energias desses elementos. O polegar liga-se ao elemento Terra e, tem como órgão Yin o baço-pâncreas e Yang o estômago. Une-se ao dedo indicador o elemento Madeira, tendo o fígado como órgão Yin e a vesícula biliar como Yang. O dedo médio encontra-se ligado ao elemento Fogo, onde o coração representa o órgão Yin e o intestino delgado o Yang. Já o dedo anular se agrega com o elemento Metal, influenciando o órgão Yin pulmão e o órgão Yang intestino grosso. Por último, o dedo mínimo faz ligação com o elemento Água, originando o órgão Yin rim e o Yang bexiga.

5. Fisiologia Energética

Todo bebê apresenta uma vasta capacidade de crescimento e de desenvolvimento físico, emocional e intelectual. Entretanto, tal capacidade se torna limitada pela matriz constitucional genética e energética do bebê e pelo meio ambiente que o cerca, ao qual se incluem os pais, responsáveis fundamentais pelas escolhas que influenciarão esse desenvolvimento.

Assim como as características físicas herdadas, as energias constitucionais variam de pessoa para pessoa, podendo estar em pleno equilíbrio ou com deficiência em algumas áreas. Porém, a existência de fraqueza energética não significa a instalação de um problema imediato ou inevitável.

Na medicina chinesa tradicional, a teoria de Yin/Yang traça a criança como um ser insuficiente de Yang e incapacitado quanto à produção plena de Yin. Tal teoria designa ao Yin as funções viscerais (essência, sangue, líquidos) e ao Yang as funções dos órgãos internos (produção e armazenamento de Qi). Sendo assim, a limitação quanto à evolução da criança se da devido à imaturidade do Yin e do Yang.

As teorias médicas chinesas descrevem que os sistemas de órgãos são considerados os maiores produtores e controladores do Qi. A eles, são atribuídas funções energéticas assim como a medicina ocidental atribui funções fisiológicas a cada órgão. Cada um desses sistemas é composto pela estrutura física do órgão, os pontos ligados ao órgão ao longo do seu meridiano e a função energética do órgão.

Entretanto, após o nascimento, cuidados pós-natais adequados excluem a possibilidade de esses órgãos produzirem qualquer tipo de condição patológica endógena, partindo do princípio de que tais órgãos e os meridianos não se encontram completamente formados e integralmente fortalecidos, podendo a falta de cuidados devidos afetá-los.

Cada sistema de órgão apresenta um aspecto diferente de produção, armazenamento e movimentação do Qi. Aos pulmões, cabem as responsabilidades de transformar o ar, que entra através da inspiração, em Qi utilizável pelo corpo. Sua resistência e força a enfermidades dependem do bom funcionamento do estômago e do baço, os quais, por serem deficientes nas crianças, tornam o pulmão fraco. Os rins armazenam tipos diferentes de Qi: o pré-natal, herdado ao nascimento e irrenovável, e o pós-natal ou adquirido. Ambos são liberados pelos rins quando necessário. Destas funções dependem o bom desenvolvimento dos ossos, da medula, dos cabelos, dos dentes, das orelhas e a resistência a doenças. Ao fígado é atribuída a função de armazenar e regular o sangue, auxiliar no processo digestivo do estômago e do baço e controlar os tendões, refletindo, significativamente, na velocidade de crescimento e desenvolvimento da criança. O coração oferece suporte geral para que os outros sistemas dêem conta de suas responsabilidades, além de controlar o Shen (espírito que dá orientação e serve de base para aspectos físicos e energéticos da criança). A instabilidade do Shen, observada nas mudanças extremas de expressões emocionais da criança, é considerada um aspecto normal da infância, mas pode tornar-se patológica caso haja um aumento significativo dessas mudanças ou um medo extremo da criança. Por último e não menos importante, o baço desempenha a tarefa de converter alimentos em Qi utilizável pelo corpo, além de produzir sangue, músculos fortes e crescimento vigoroso. A má alimentação pode deixar as crianças mais susceptíveis a doenças devido ao fato de seu desenvolvimento consumir grandes quantidades de Qi, exigindo muito do baço.

Há ainda uma energia denominada Yang Qi, a qual é representada como uma força motivadora das constantes transformações e mudanças fisiológicas e energéticas básicas. O bom desenvolvimento da estrutura Yin só é obtido através dessa energia em excesso.

6. Patologia Energética

Ao contrário dos adultos, as crianças são mais expostas às inúmeras condições patológicas por possuírem fragilidades como órgãos internos imaturos, meridianos, pele e músculos fracos, Qi e sangue insuficientes. Tais debilidades resultam em um desequilíbrio energético que poderá gerar síndromes de mudanças que alteram a quantidade de Qi ou transformam o calor em frio, distúrbios sazonais imprevisíveis e ainda provocar uma deficiência ou um excesso dos órgãos.

Sobre as síndromes de mudanças, a deficiência e o excesso como sendo formas diferentes de quantidade de Qi numa determinada condição, que refletem na falta de Qi vital e na predominância de agentes patológicos, respectivamente. Essas formas distintas podem tanto evoluir numa combinação complexa das duas, quanto mudar rapidamente de uma forma para outra. Em um determinado padrão patológico, o tipo de energia envolvido na condição define a possível mudança de temperatura. Inicialmente as síndromes caracterizam-se pela presença de calor, significando um excesso de energia e, mais tardiamente, esse calor pode transformar-se em frio indicando a deficiência energética.

Devido à imaturidade defensiva da criança, alguns inimigos externos podem penetrar facilmente seu corpo e alterar o fluxo de Qi, causando doenças. Esses inimigos externos podem ser: o vento, que mesmo sendo seco ou em dias de calor pode causar doenças agudas como resfriado, tosse e dor de garganta; o frio, que pode baixar a temperatura corporal causando uma conseqüente diminuição na velocidade da circulação artificial que pode levar a problemas no estômago e no peito; o calor, que em excesso pode originar febre, inflamação e prisão de ventre; o ar viciado, o qual pode ocasionar diarréia e desânimo. Outros fatores externos como a umidade e a secura também podem ocasionar alterações do Qi e possíveis doenças.

Conforme descrito anteriormente, na criança, o crescimento e desenvolvimento energético é semelhante ao estrutural e ao fisiológico, sendo que os três iniciam-se imaturos. Tal desenvolvimento se dá de maneira rápida, fazendo com que sejam consumidas grandes quantidades de Qi, levando os principais órgãos produtores de Qi a um estado de deficiência energética. Inversamente a essa condição, ocorre o excesso de energia de outros órgãos, que reflete a energia hiperativa necessária a um bom desenvolvimento. Ressalta-se que ambos os distúrbios energéticos são considerados conseqüências naturais das transformações ocorridas no corpo da criança.

Algumas patologias gerais relacionadas às deficiências energéticas inerentes dos principais órgãos produtores de Qi na criança podem ser destacadas. O conjunto baço/estômago já apresenta uma deficiência natural, mas caso sofra algum estresse adicional poderá manifestar desordens gastrointestinais, dor ou distensão abdominal, vômitos, arrotos, diarréia, má absorção e até desnutrição. Essa situação agrava-se à medida que a criança é exposta a fatores patogênicos ou quando lhe são oferecidas alimentações inadequadas bem como aleitamento materno insuficiente. O Qi do pulmão insuficiente facilita a invasão por inimigos externos, melhor observada quando as influências sazonais atacam esse órgão. Desta forma, a criança se torna mais susceptível a resfriado comum, tosse, espirros, coriza e, frente a um estresse maior, a asma, respiração sibilante e pneumonia. A deficiência do rim, talvez gerada por cuidados pós-natais inadequados ou até por deficiências congênitas, pode originar incapacidades de nutrição correta aos ossos, tendões e à medula. O prejuízo no desenvolvimento refletirá em atrofia muscular, flacidez, padrões de crescimento retardados e até convulsões, espasmos e opistótonos, caso combinado a um Yang do fígado.

O excesso inerente de alguns órgãos é visto como um aspecto natural da criança e necessário ao seu desenvolvimento, mas pode resultar em algumas condições e patologias caso atinja índices extremos. No coração, o excesso de energia se reflete na instabilidade do Shen. Em conseqüência, pode haver a instalação de condições como choro noturno, desequilíbrios emocionais e espirituais, falta de atenção, comportamento autocentrado e ainda afetar qualquer outro órgão. O fígado, governador das emoções, quando em excesso, gera mudanças rápidas e fortes de comportamento com temperamento ou raiva descontrolados, dores de cabeça, perturbações do sono, irritabilidade, tiques nervosos, convulsões, problemas abdominais, prisão de ventre e/ou diarréia, gases, cansaço e vômito. A energia do Yang Qi também pode apresentar-se em excesso, mas não possui a capacidade de produzir nenhuma patologia especifica, apesar de sua contribuição na maioria das desarmonias. Esse excesso se encontra intimamente ligado aos surtos rápidos e radicais e à facilidade com que a criança se adapta à maioria das condições.

A combinação de deficiências e excesso hiperativo é uma característica peculiar da patologia pediátrica. Quando comparadas às dos adultos, as doenças infantis são freqüentemente mais simples, com menos variedade de sinais e oscilações emocionais. Nas crianças, a predominância da energia Yang se faz responsável por reações sensíveis e imediatas frente a um desequilíbrio, motivando tanto uma rápida evolução do quadro de doença, quanto uma alta capacidade de recuperação.

7. Avaliação

Frente a uma doença, a avaliação é vista como um meio fundamental no desenvolvimento de princípios e planos de tratamento adequados. Se na medicina ocidental as habilidades de avaliação são essencialmente de natureza técnica, a medicina oriental chinesa se diferencia outra vez, baseando-se menos na tecnologia e mais nas habilidades sensoriais humanas. Estas habilidades classificam-se em quatro categorias gerais de exames: inspeção, palpação, interrogatório e ausculta/olfação.

A inspeção é um ponto chave no diagnóstico pediátrico. Isso ocorre em conseqüência da relativa incapacidade de as crianças comunicarem seus sinais e sintomas sutis e, ainda, por seus possíveis desequilíbrios energéticos refletirem na superfície corpórea. Destaca-se a inspeção de áreas como: pele, áreas do rosto, língua, orelhas, lábios e boca, olhos e nariz.

Em relação à inspeção da pele, suas cinco colorações básicas correspondem cada uma delas a um órgão interno ou refletem doenças internas. Vale ressaltar que esta observação deve ser realizada sob luz natural.

Na observação das áreas do rosto, destaca-se uma área de suma importância, a Base da Montanha ou Shan Gen. Esta área se localiza acima do nariz entre as sobrancelhas e corresponde ao Yin Tang (quinto ponto extra na acupuntura para adultos). Em crianças menores de seis anos, essa área indica as alterações do baço/estômago.

No rosto, além da Base da Montanha, são inspecionadas áreas como a testa, as pálpebras, as bochechas, a protuberância frontal, os lóbulos da orelha, o queixo, as narinas e o espaço entre elas e o canto da boca, relacionando os sinais aos respectivos estados.

A teoria médica chinesa afirma que o corpo inteiro reflete-se na língua e que cada área corresponde a órgãos internos específicos. Sendo assim, a língua também pode ser utilizada como meio orientador no exame do órgão ou parte do corpo envolvida no padrão de desequilíbrio, tornando-se uma área importante e merecedora de uma avaliação adequada.

Nas crianças, as regiões mais notadas da língua a serem avaliadas correspondem ao baço/estômago, ao coração e aos pulmões.

Sobre a avaliação dos órgãos dos cinco sentidos, são observadas: nas orelhas, manifestações externas dos rins que refletem o estado do meridiano da bexiga; nos lábios e boca, manifestações externas do baço que refletem seu estado; nos olhos, manifestações externas do fígado, indicando o estado desse órgão; e no nariz, manifestações externas do pulmão e o reflexo do estado desse órgão.

A inspeção abrange também a avaliação do Shen, dos pés e das mãos e da veia do dedo indicador. Os sinais da diminuição do Shen são expressos por olhos caídos, respiração anormal, diarréia constante, perda de peso e o excesso é expresso pelo brilho nos olhos, voz ou choro audível e claro, bom desenvolvimento corporal, respiração normal, movimento intestinal regular e boa urinação. Durante a observação dos pés e das mãos, a presença de unhas arroxeadas, unhas negras ou ainda espasmos nos pés e mãos com rigidez da coluna indicam, respectivamente, dor cardíaca, exaustão do fígado e convulsões. Por fim, para a inspeção da veia do dedo indicador, deve se dividir tal dedo em três partes: falange proximal, média e distal. Nessas regiões, a coloração vermelha clara é normal, porém a coloração como vermelho pálido indica frio, vermelho vivo indica vento frio de origem externa, púrpura indica sintomas de calor, púrpura escura indica vasos obliterados e azul indica estado crítico e sintoma de doença grave; a dor é um pródomo de convulsões. O comprimento dos capilares também é avaliado: se aparecer na falange proximal, significa que o fator patogênico é superficial e a doença é benigna; se estiver na falange distal, indica que a doença é profunda e mais grave; se o capilar se estender sem interrupção até a unha, atravessando as passagens, há indícios de uma doença gravíssima e crítica.

Outro ponto chave para um bom diagnóstico é a palpação, a qual é facilitada devido à estrutura corporal da criança ter menos barreiras defensivas e menor densidade, tornando-a mais acessível. Em crianças menores de cinco anos, a palpação do abdômen substitui a dos pulsos e indica problemas tanto específicos quanto gerais.

A palpação da pele reflete as relações dos órgãos com a invasão pelos patógenos externos, a transformação dos líquidos e a temperatura.

Já a palpação do corpo, incluindo cabeça e pescoço, fornece informações importantes dos efeitos das desarmonias internas sobre o desenvolvimento e a integridade estrutural normal.

A palpação dos pulsos só é válida em crianças maiores de sete anos de idade, embora a ênfase do diagnóstico dos pulsos seja maior nos adultos.

Em relação à avaliação por meio da ausculta, pode-se obter informações importantes e complementares do estado geral bem como sobre alguns problemas específicos da criança. A ausculta pediátrica abrange voz e ruídos produzidos pela criança e o tipo de respiração que a mesma executa.

Por último, utilizando o interrogatório da própria criança, se capaz de a mesma realizar boa comunicação, e/ou dos pais ou cuidadores que tenham presenciado o progresso da condição. Esta técnica não é considerada muito eficiente devido à fácil omissão de certas informações importantes às vezes consideradas irrelevantes pelo interrogado. Dentro do interrogatório, questiona-se sobre a temperatura com o intuito de distinguir o tipo e a veracidade das invasões patogênicas externas.

Deve haver o interrogatório sobre a dieta, que revela o funcionamento geral do baço e sobre a transpiração, que indica a profundidade e as forças relativas de uma condição.

8. Técnicas

A distinção da MPC de outros tipos de massagem se dá devido à grande quantidade e complexidade de manipulações que requerem precisão, destreza e graça, embora alguns movimentos sejam semelhantes à massagem em adultos. Outro aspecto diferencial é que, na MPC, as técnicas não são apenas manipulações físicas, mas também manipulações que influenciam as estruturas energéticas.

Leve, rápido e estimulante são palavras-chave de uma boa aplicação das técnicas da MPC. E como a energia da criança é de fácil acesso, não é necessária uma pressão demasiada como a aplicada em adultos. Além da pressão, que deve ser suficiente para equilibrar a desarmonia energética, são fundamentais para a obtenção de bons resultados, pontos como: a duração da técnica, que deve ser realizada por tempo suficiente até que atinja o efeito desejado; a suavidade, de forma que a técnica não gere mais dor do que a sentida levando em consideração o limiar de dor de cada criança; o ritmo ou uniformidade da aplicação, que é a forma regular, suave e contínua da aplicação, sendo que cada técnica tem seu próprio ritmo, embora seja um tanto quanto subjetivo.

Cada uma das técnicas da MPC apresenta um efeito energético, que pode ser tonificante ou sedativo. Nos casos de deficiência energética, usa-se a tonificação como forma suplementar e restauradora da força de um elemento fraco. Quando encontrado algum excesso ou estagnação energética, usa-se a sedação. Estas técnicas afetam facilmente as crianças, que possuem sua natureza energética instável, sendo importante a aplicação da técnica adequada. Caso contrário, poderá piorar a condição já instalada. Ressalta-se ainda a necessidade de realizar um bom diagnóstico, fazendo constantes reavaliações para observar se a técnica é a melhor para o momento, visto que o curso da doença pode mudar rapidamente.

Na medicina tradicional chinesa, as técnicas de massagem são divididas em simples e múltiplas, compostas, respectivamente, de repetições básicas do mesmo movimento sobre um ponto e realizações de vários tipos de manipulações ao mesmo tempo ou em seqüência.

· Pressionar

Composta por movimento de pressão, semelhante ao de apertar um botão, onde são utilizados os dedos indicador, dedo médio ou a palma da mão para pressionar o ponto. A pressão deve ser aumentada gradativamente de leve para forte levando em consideração o tipo de doença instalada. Esta técnica aquece os meridianos, desobstrui os colaterais, tranqüiliza a mente e alivia a dor.

· Pressionar e Girar

Composta por uma pressão inicial à qual é acrescentado um movimento giratório de forma uniforme, suave e rítmica com um, dois ou três dedos ou com a base da mão. Esse movimento faz mover o Qi, ativa o sangue, limpa os meridianos, harmoniza os colaterais e desobstrui os órgãos.

· Empurrar

Composta por um movimento de deslizamento o qual deve ocorrer numa única direção e num padrão linear ao longo do ponto em questão para evitar outros pontos ou meridiano. Esta técnica relaxa os tendões, ativa o sangue, limpa os meridianos e alivia a dor.

· Empurrar Separando

Composta por um movimento unidirecional, rápido e com leve pressão, onde são utilizados os dedos polegares para empurrar a partir do centro do ponto até a periferia, movendo ambas as mão simultaneamente. Esta técnica tem a ação de regular e harmonizar o Yin e o Yang, direcionar o Qi e ativar o sangue.

· Empurrar Juntando

Esta técnica é semelhante à de empurrar separando, só que a direção do movimento é da periferia para o centro. O efeito produzido é a regulação e harmonização do Yin/Yang, movimentação do Qi e ativação do sangue.

· Girar e Empurrar

Esta técnica se assemelha à de Pressionar e Girar podendo ser feito pelos dedos ou pela base da mão, porém o ponto de contato da mão não permanece estacionário, pelo contrário, ele movimenta-se ao longo da superfície da pele. A função dessa técnica é regular o Qi, harmonizar o sangue e desobstrui os colaterais.

· Beliscar a Coluna Vertebral

Composta pelo movimento de agarrar a pele com os polegares e com os dedos indicadores, enrolando e levantando a pele da coluna com suavidade e, subindo ao longo da coluna desde o sacro até a região cervical. Esse movimento deve ser realizado somente numa direção, sempre da parte inferior para a superior das costas. Esta técnica tem a função de regular o Yin, o Yang, o Qi e o sangue, harmonizar os órgãos, suavizar a função do meridiano e tonificar uma deficiência.

· Pegar

Composta pelo movimento de pegar a pele delicadamente no local do ponto, usando o polegar e o indicador, erguendo-a rápida e repetidamente até o ponto começar a ficar vermelho. A ação desta técnica é induzir a transpiração, aliviar o exterior, abrir orifícios, acalmar a mente, regular e harmonizar o Qi e o sangue.

· Esfregar

Composta pelo gesto de esfregar o ponto delicada e lentamente com a palma da mão ou a protuberância dos dedos indicador, médio e anula. Esta técnica harmoniza o aquecedor médio e retifica o Qi.

· Esfregar e Rolar

Composta pelo movimento de segurar a região a ser tratada com as palmas de ambas as mãos, uma de cada lado, esfregar as palmas das mãos uma na outra e depois realizar um movimento vigoroso de vai e vem das palmas sobre o corpo da criança de modo rápido e rítmico. O efeito produzido por esta técnica regula o Qi, harmoniza o sangue, relaxa os tendões e os vasos.

· Esfregar as Palmas Juntas

Composta pelo movimento de esfregar vivamente as palmas das mãos juntas usando pouca pressão, com rapidez e de forma repetida para frente e para trás. Após gerar um calor significativo (Qi), aproximadamente de 15 a 20 segundos, o ponto é coberto recebendo o calor. Este movimento gera uma tonificação de qualquer deficiência, aquece os meridianos e nutre o Yang original.

· Sacudir

Composta por movimentos oscilatórios, para frente e para trás, de modo delicado, lento e rítmico. Tem o efeito de harmonizar o Qi e o Xue, desobstruir meridianos e colaterais e melhorar o movimento das articulações.

· Amplitude de Movimento

Esta técnica varia de acordo com o movimento da parte do corpo em questão. Consiste em realizar todos os movimentos que a articulação tratada desempenha, de forma delicada e rítmica. O efeito produzido abre e desobstrui meridianos e colaterais, movimenta e harmoniza o Qi e o Xue.

9. Tratamento

Nas crianças, seus órgãos delicados e imaturos justificam a suscetibilidade de as mesmas adoecerem pela influência de fatores exopatogênicos ao invez de desenvolverem doenças internas por fatores emocionais. As doenças infantis caracterizam-se por aparecimento abrupto com rápida evolução e transmissão, sendo de suma importância a seleção correta das manipulações, força e duração do tratamento baseados na condição física, psíquica e na idade da criança.

Após a elaboração de um plano de tratamento, a manipulação dos pontos escolhidos deve obedecer a seguinte ordem: mãos, braços, parte da frente do tronco, parte de trás do tronco, pernas e cabeça. A estimulação deve ser simultânea nos pontos bilaterais e abre-se a exceção de manipular, no final do tratamento, aqueles pontos que causem desconforto devido à sua localização.

Deve-se utilizar as manobras mais fortes no final da sessão, devido à possibilidade de o choro e a negativa cooperação da criança poderem interferir no resultado terapêutico, prejudicando-o.

O tempo de duração da massagem depende do número de pontos selecionados no plano de tratamento e pelo número de repetições que a técnica exige. Geralmente, a massagem dura de 15 a 25 minutos.

Algumas diretrizes gerais são sugeridas quanto à freqüência do tratamento, que depende da gravidade e do tipo de doença. Nas doenças agudas, são indicadas sessões diárias de MPC; nas graves. a aplicação deve ser de duas vezes por dia e, nas doenças crônicas ou causadas por deficiência, a freqüência de aplicação deve ser intercalada, dia sim, dia não. O número de sessões também varia, mas em geral, uma doença aguda é curada com uma a três sessões. Um problema crônico pode necessitar de dez a vinte sessões durante um período de seis a oito meses. Casos mais graves podem precisar de mais tempo para cessar a doença.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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